Itamargarethe Corrêa Lima* – Jornalista, radialista e advogada. Pós-graduada em Direito Tributário, Direito Penal e Processo Penal. Pós-graduanda em Direito Civil, Processo Civil e Docência do Ensino Superior.

Expiação é uma palavra pouco utilizada no cotidiano e, justamente por isso, muitas vezes mal compreendida. Em seu sentido mais amplo, representa as consequências naturais dos atos humanos. Não significa, necessariamente, castigo.
Apenas quer dizer que toda escolha produz efeitos e que ninguém consegue escapar completamente deles. Quando essas consequências deixam de atingir apenas um indivíduo e passam a alcançar toda a sociedade, surge aquilo que pode ser compreendido como expiação coletiva.
Antes de adentrarmos no assunto que será abordado, é importante ressaltar que a inspiração para esta reflexão nasceu durante uma conversa com Eurípedes Barsanulfo (1880–1918), médico, educador, jornalista, escritor e um dos mais respeitados pensadores espíritas brasileiros. Contudo, cabe um esclarecimento para que essa afirmação não cause estranheza.
Sim, sou espírita, e foi em um desses encontros com o mundo espiritual que surgiu tal reflexão. Eurípedes dedicou sua vida ao exercício da medicina, ensino e amparo dos mais necessitados, deixando um legado marcado pela responsabilidade moral e compreensão de que toda ação humana produz consequências inevitáveis.
Às vésperas de mais um processo eleitoral, essa ideia revelou-se extraordinariamente atual. Não porque este artigo pretenda discutir opção religiosa, no entanto porque a política talvez seja o espaço onde uma sociedade mais claramente experimenta os efeitos das próprias escolhas.
Cada voto ou omissão ajuda a construir o país que existirá nos anos seguintes. É sob essa perspectiva que a expressão expiação coletiva será repetidamente utilizada, tendo como foco uma leitura política e social da realidade brasileira.
A pobreza persistente, corrupção sistêmica, violência crescente, desigualdade social e o enfraquecimento das instituições raramente são acontecimentos isolados. São, em grande medida, o resultado acumulado de decisões políticas e, antes delas, das escolhas feitas por aqueles que conferem poder aos governantes.
A sociedade inteira paga pelas escolhas feitas e também pelas negligenciadas. Uns sofrem com a ausência de serviços públicos essenciais, enquanto outros convivem com o aumento da insegurança, o enfraquecimento da economia ou a perda da confiança nas instituições.
Em intensidades diferentes, ninguém permanece completamente imune. Isso é o que chamamos, como em outrora, expiação coletiva. O preço social das decisões individuais quando projetadas sobre o destino comum.
O eleitor brasileiro, em parcela significativa, ainda vota movido por interesses imediatos. Pouco importa o projeto de sociedade, capacidade administrativa ou visão de futuro do candidato. A decisão costuma ser influenciada pela promessa de um favor, identificação emocional, gratidão pessoal ou expectativa de obtenção de alguma vantagem.
A pergunta que frequentemente orienta o voto não é qual candidato governará melhor para todos e, sim, qual poderá resolver um problema particular, seja um emprego, consulta médica, indicação, ajuda financeira ou qualquer outro benefício individual. O horizonte limita-se ao presente, fazendo com que o coletivo desapareça diante da necessidade imediata.
Essa lógica não nasceu agora. O Brasil desenvolveu-se sob uma profunda cultura do favor e do clientelismo. Durante décadas, consolidou-se a ideia de que o bom político é aquele que resolve problemas particulares, ainda que fracasse completamente na administração da coisa pública. O bem comum tornou-se secundário, e o benefício privado passou a ocupar o centro das relações políticas.
Existe, entretanto, uma diferença fundamental entre interesse pessoal e egoísmo. Aquele compreende que o bem-estar individual depende de uma sociedade saudável, segura e desenvolvida, já o egoísmo, ao contrário, acredita ser possível prosperar isoladamente, ainda que a coletividade afunde em pobreza, violência e desigualdade.
Essa crença revela-se ilusória. O muro da propriedade não impede o avanço da violência, bem como a escola particular não elimina os efeitos da precariedade da educação pública.
O melhor plano de saúde não substitui um sistema público eficiente diante de epidemias ou crises sanitárias. A degradação do espaço público acaba alcançando também aqueles que imaginavam estar protegidos por seus privilégios.
Por isso, o individualismo eleitoral não representa apenas um problema ético. É um erro de percepção. Quem vota exclusivamente pensando no benefício imediato acaba, muitas vezes, votando contra seus próprios interesses de médio e longo prazo.
Também é um equívoco avaliar um político exclusivamente por sua vida privada. Um homem pode ser excelente pai, marido dedicado, vizinho prestativo e pessoa profundamente religiosa, no entanto, nada disso garante que exerça o mandato em favor do interesse público.
Da mesma forma, alguém pode demonstrar generosidade dentro de casa e, estranhamente, apoiar medidas que aprofundem desigualdades, reduzam investimentos em saúde e educação, enfraqueçam políticas públicas ou beneficiem apenas grupos privilegiados. A bondade privada jamais substitui a responsabilidade pública.
O votante, porém, frequentemente transfere para a política critérios que pertencem exclusivamente à vida pessoal. Confunde boa reputação familiar com competência administrativa, religiosidade com honestidade política e, ainda, simpatia com compromisso público.
Esse erro produz consequências concretas, pois quando os representantes que escolhemos atuam para atender interesses restritos em detrimento da coletividade, multiplicam-se os efeitos sociais. Cresce a pobreza, a violência torna-se mais intensa, o desemprego aumenta, a educação perde qualidade, a saúde pública se deteriora, ou seja, desaparece a confiança nas instituições.
O mais preocupante é que esse processo costuma ocorrer com a participação involuntária da própria sociedade. O político oferece favores, a população troca por votos, o mandato é conquistado, os benefícios permanecem concentrados em poucos, entretanto, a conta é dividida por todos.
Não se trata de atribuir aquele que vai às urnas a mesma responsabilidade de quem exerce o poder. Os papéis são distintos, outrossim é impossível ignorar que a democracia nos transforma em corresponsáveis pelos rumos da coletividade. O voto não é apenas um direito, é também um compromisso com as gerações presentes e futuras.
A verdadeira maturidade democrática começa quando a pessoa deixa de perguntar se determinado candidato poderá ajudá-la individualmente e passa a questionar que tipo de sociedade esse candidato ajudará a construir.
Da mesma forma, o político precisa compreender que sua biografia pessoal não absolve sua atuação pública. O julgamento da história não recai sobre a aparência de virtude, porém sobre os resultados produzidos durante o exercício do poder.
Não se trata de negar o interesse pessoal. Isso seria incompatível com a própria condição humana. O desafio consiste em ampliá-lo além do próprio umbigo.
Compreender que o melhor para cada indivíduo depende, inevitavelmente, do bem da coletividade. Nenhuma sociedade profundamente injusta consegue oferecer segurança duradoura, prosperidade estável ou paz verdadeira.
Sob essa perspectiva, a expiação coletiva deixa de representar um conceito abstrato e passa a revelar uma realidade concreta. Cada indicador de pobreza, estatística de violência, escola abandonada, hospital superlotado e oportunidade perdida refletem escolhas feitas ao longo do tempo.
A boa notícia é que consequências também podem ser transformadas. Se os problemas sociais decorrem das escolhas humanas, novas decisões podem alterar esse percurso. A democracia oferece exatamente essa possibilidade. Corrigir o rumo antes que o preço se torne ainda mais elevado.
Romper o ciclo do holocausto exige abandonar a cultura do favor, rejeitar o clientelismo e compreender que o voto não é moeda de troca, mas, sim, um instrumento de construção social. Enquanto o interesse privado continuar orientando a escolha pública, o sofrimento continuará sendo coletivo.
A verdadeira transformação política não ocorre com a posse do eleito. Começa na consciência de quem vota, pois lá nasce a responsabilidade, aflora a decisão se a sociedade continuará repetindo os mesmos erros ou finalmente compreenderá que a sociedade não prospera quando cada um pensa apenas em si.













