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A SOLIDÃO ACOMPANHADA!

*Itamargarethe Corrêa Lima* — Jornalista, advogada, pós-graduada em Direito Tributário, Direito Penal e Processo Penal, pós-graduanda em Direito Civil, Processo Civil e Docência do Ensino Superior.


Em nosso encontro de hoje, vamos conversar sobre uma das experiências mais contraditórias e difíceis de compreender quando falamos de depressão, a possibilidade de alguém se sentir profundamente só mesmo estando cercado de pessoas.

Uma solidão que pode existir dentro de uma casa cheia, entre amigos, em um relacionamento, no ambiente de trabalho ou em meio a uma vida social aparentemente intensa. Talvez seja justamente isso que torne esse sentimento tão difícil de explicar, inclusive para quem o vivencia.

Como dizer que existe solidão quando há mensagens chegando, convites, pessoas por perto, demonstrações de carinho e alguém com quem dividir a rotina? A resposta talvez esteja em uma diferença que nem sempre percebemos.

Ter companhia não significa necessariamente sentir-se acompanhado. Há pessoas que conhecem nossos hábitos, acompanham o dia a dia, sabem onde estivemos, com quem saímos e até percebem quando alguma coisa parece diferente.

Ainda assim, podem desconhecer completamente aquilo que se passa em nosso íntimo. Afinal, proximidade física, convivência e conexão emocional não são necessariamente a mesma coisa. É justamente dessa experiência que trata o bate-papo de hoje.

A solidão acompanhada. Aquela que não nasce necessariamente da falta de pessoas, e sim da dificuldade de estabelecer uma conexão verdadeira com quem está ao redor. Muitas vezes, há alguém para conversar sobre quase tudo, menos sobre aquilo que realmente importa.

Nunca estivemos tão conectados e, ao mesmo tempo, talvez nunca tenha sido tão fácil permanecer emocionalmente distantes. As redes sociais ampliaram contatos, encurtaram distâncias e criaram novas possibilidades de convivência. Sabemos onde alguém está, o que comeu, para onde viajou e até o que fez durante o dia.

Acompanhamos aniversários, casamentos, separações e conquistas de pessoas que, algumas vezes, sequer encontramos pessoalmente há anos. Conhecer os acontecimentos da vida de alguém, no entanto, não significa necessariamente conhecê-la. Talvez esteja justamente aí uma das grandes contradições do nosso tempo.

Tornamo-nos extremamente visíveis e, paradoxalmente, podemos permanecer profundamente desconhecidos. Mostramos onde e com quem estamos e muitos dos momentos que escolhemos compartilhar. Raramente, porém, tornamos público aquilo que acontece quando a fotografia termina e já não existe ninguém olhando.

Essa experiência está longe de existir apenas nas redes sociais. Há casais que dividem o mesmo teto, cama, contas, filhos e uma história inteira, entretanto deixaram de compartilhar aquilo que acontece dentro de si.

Conversam sobre trabalho, compromissos e problemas cotidianos enquanto medos, angústias e inseguranças permanecem guardados.
A convivência continua, embora a intimidade emocional possa desaparecer aos poucos.

O mesmo acontece nas amizades, em encontros cercados de risadas e conversas nos quais ninguém percebe que alguém está fazendo um enorme esforço apenas para continuar parecendo bem.

Nem sempre isso ocorre porque faltam pessoas dispostas a ouvir. Quem sofre também pode não encontrar palavras para explicar aquilo que sente. Talvez esse seja um dos aspectos mais difíceis de compreender para quem observa de fora.

“Você tem tantos amigos, uma família que ama você, nunca está sozinho.” Tudo isso pode ser absolutamente verdadeiro e, ainda assim, o sentimento permanecer. Companhia e conexão, afinal, são coisas diferentes.

Sentir-se emocionalmente acompanhado pressupõe algo que nenhuma quantidade de contatos, seguidores ou mensagens consegue substituir. É encontrar um espaço no qual não seja necessário representar permanentemente uma versão aceitável de si mesmo. É poder dizer que não está bem sem precisar apresentar imediatamente uma explicação convincente.

Na depressão, essa dificuldade pode se tornar ainda mais intensa. O isolamento não acontece apenas quando alguém fecha a porta do quarto, recusa convites ou desaparece da convivência social.

Há pessoas que continuam presentes fisicamente enquanto começam, pouco a pouco, a se afastar emocionalmente. Deixam de compartilhar sentimentos, evitam conversas mais profundas e aprendem a responder quase automaticamente que está tudo bem.

Para quem observa, aparentemente nada mudou. Internamente, contudo, pode crescer a sensação de que ninguém seria capaz de compreender aquilo que estão vivendo.

Talvez seja por isso que algumas dores permaneçam invisíveis durante tanto tempo. Não necessariamente porque ninguém estivesse por perto, e sim porque estar perto nunca foi exatamente a mesma coisa que estar junto.

Compreender essa diferença também nos obriga a olhar para as próprias relações. Quantas pessoas conhecemos verdadeiramente para além daquilo que elas mostram? Quantas vezes perguntamos como alguém está e permanecemos disponíveis para uma resposta diferente de “estou bem”?

E quantas vezes escolhemos o silêncio porque acreditamos que ninguém compreenderia aquilo que gostaríamos de dizer? Talvez algumas das pessoas que parecem mais acompanhadas sejam justamente aquelas cuja solidão ninguém consegue perceber.

A solidão acompanhada não se mede pela quantidade de pessoas ao redor. Ela pode existir no meio de uma multidão e desaparecer numa conversa entre duas pessoas. Talvez, no fim, o verdadeiro oposto da solidão não seja simplesmente ter companhia, e sim encontrar alguém diante de quem seja possível existir sem precisar esconder aquilo que sentimos.

Ainda existem outras faces silenciosas desse sofrimento que merecem ser compreendidas e é sobre elas que continuaremos conversando nos próximos encontros. Por hoje, ficamos por aqui. Até breve!

Categoria: Notícias

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